sábado, setembro 22, 2001

Conclamação aos guerreiros espectrais do Futuro e do Passado:


Através do cintilante caleidoscópio das fosfóricas planícies
tartáricas, as tropas do Bastiani iniciam sua marcha triunfal!
Ó Poderoso Amir ul-Momineen, Fulgurante Senescal das Legiões
Transfinitas, que os Senhores do FOGO e da IRA alimentem a chama
sagrada que consumirá os Céus!!


Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros
Aos guerreiros, pensadores e poetas das legiões quânticas do Império
Transfinito:



Alphonse Van Worden - 1750 AD


- Os sete sumo-sacerdotes da META-SABEDORIA ANTI-GRAVITACIONAL -
Lindhorst, Kreisler, Spikher, Murr, Klingsohr, Sevast e Brankovitch -
manifestam irrestrita solidariedade à nossa prístina missão, e
declaram: "Peregrinamos convosco na egrégia jornada trans-onírica em
direção ao Reino da IRREALIDADE FLAMEJANTE!". A vós, preclaros e
veneráveis mestres, dedicamos nossos mais profundos votos de admiração,
fé e amizade!


- Na qualidade de capitão da Guarda Valona e custódio dos Arcanos
Transfinitos, reafirmo minha férrea devoção ao imortal Amir-ul Momineen,
excelso Senescal do FOGO INEFÁVEL, e proclamo: assim como
vós, rutilante Senhor, também nós vivemos na ETERNIDADE!


- E da brumosa solidão dos iridescentes vórtices tartáricos, o
crepuscular Tenente Drogo envia o seguinte comunicado ao Grande
Profeta: "Ó insigne Senhor de meu destino, Comandante sublime da
Guerra Cósmica, assevero-te que o Bastiani está preparado
para a batalha final!"
A MISSA NEGRA DO RUÍDO BRANCO NA FÁBRICA DO CAOS


Cap. Alphonse Van Worden - AD 1750


O cinema de Andy Warhol se distingue, pelo menos em sua fase
experimental no início dos anos 60, por uma radical estética da
imobilidade: planos fixos, câmera estática, edição imperceptível,
roteiro quase inexistente. Geralmente mudos e com fotografia em B&W,
seus filmes são relatos letárgicos sobre o que está acontecendo fora
do espectro cênico enquadrado, como se a presença incidental de um
fato, congelado ao acaso no tempo e no espaço, fosse apenas o indício
de algo muito maior. Nesses ensaios sobre a ausência, o que está em
foco não é importante, mas sim o que o espectador pressente estar
acontecendo ao redor da cena. Em "Kiss" (1963), casais se beijam em
close-up durante 58 minutos. A sensação de movimento é mínima,
mas ele ainda se faz presente no campo visual do espectador.

Warhol, entretanto, conceberia no mesmo ano experiências ainda mais
insólitas, inclusive em termos de duração. "Eat" exibe, em 38 minutos,
o pintor Robert Indiana comendo um cogumelo; em "Sleep", a câmera
observa 6 horas de sono do poeta John Giorno. Em 1964, com "Empire",
o pintor/cineasta apresenta a realização máxima de seu cinema
estático, sobretudo no plano da despersonalização narrativa e de uma
calculada vacuidade dramática: uma câmera insuportavelmente imóvel
examina, durante 8 horas, sob o mesmo ângulo, a calçada em frente ao
Empire State Building.

É um cinema hiperrealista, posto que nenhuma reestruturação narrativa
do mundo é admitida, mas é também, do mesmo modo, um cinema
extremamente artificial, pois no movimento reside a própria
substância da realidade percebida pelo homem. Warhol consegue
enredar o público num sortilégio angustiante, um estado de animação
suspensa que provoca a expectativa, frustrada já de antemão, mas
ainda assim presente, de que alguma coisa está prestes a acontecer.
Essas obras não são exatamente grande cinema (e talvez tampouco o
pretendam ser), mas formulam uma hipótese inquietante: o essencial
nunca está em cena, mas oculto numa dimensão paralela, que se desvela
na transcendência do já visto; deve ser construído na mente do
espectador, que precisa abstrair-se da ilusão, sutilmente
entretecida por Warhol, de que possui todo o tempo do mundo para
apreender todas as dimensões de um fato. Curioso paradoxo: a
possibilidade de uma visão essencial na negação simbólica da visão
real, a verdade encoberta nos meandros do verdadeiro...

Em 1966, todavia, com "Velvet Underground and Nico: a Symphony
of Sound" (67 minutos, B&W), Warhol inverte totalmente sua
perspectiva cinematográfica: ao invés de êxtase contemplativo,
movimento incessante, um ciclone desenfreado de energia cinética
explodindo em velocidade warp na tela. É talvez seu melhor filme,
intenso e envolvente, com a colaboração providencial de um Velvet
Underground atroz, disposto a incinerar o suporte formal edificado
por seu inventor, granadas sonoras estilhaçando fotogramas,
celulóide posto em combustão elétrica pelo espectro de Antonin
Artaud, fragmentado pelos macabros sortilégios de quatro anjos
negros, 'Not a bloodied country All covered with sleep Where the
black angel did weep (...) And if Epiphany's terror reduced you to
shame Have your head bobbed and weaved Choose a side to be on.....'

O cenário é a lendária Factory, o atelier/QG do artista
novaiorquino: um imenso e desordenado galpão, cujos limites se
dissolvem na refração luminosa de suas superfícies argentinas. Em
flashes rápidos e descontínuos, podemos entrever, espalhados pelo
chão, alguns membros do famigerado séquito de Warhol: Gerard Malanga,
Billy Name, Edie Sedgwick, Stephen Shore, talvez Mary Woronov, Ultra
Violet, Ingrid Super Star; um pouco mais adiante, destacada do grupo,
vemos Nico, a glacial valquíria junkie, sentada num banquinho com um
pandeiro nas mãos; ao fundo, de óculos escuros e trajes negros, os
Velvet's improvisam furiosamente uma espécie de "Sister Ray"
'avant la lettre', ainda mais caótica e desarticulada que sua
ilustre herdeira.

Em giros cada vez mais rápidos, a câmera de Warhol voa
desordenadamente pelo local, recortando a cena em desconcertantes
fragmentos visuais. A muralha de white noise que flui dos
amplificadores funde-se ao tiroteio pontilhista dos fotogramas de
tal modo que podemos, sem exagero, falar num fenômeno de
transubstanciação: estamos vendo a música e ouvindo as imagens.
Aliás, este filme pode ser encarado como um magnífico tratado sobre
a interconexão entre som e imagem na linguagem cinematográfica. De
facto, Warhol e os Velvets entram em simbiose: as imagens se
desmancham velozmente numa tempestade fotoelétrica, enquanto "Mo"
Tucker acelera o compasso insidioso de sua bateria, as guitarras de
Reed e Morrison rosnam microfonia, e as nervosas teclas do órgão de
Cale emitem ondas eletromagnéticas. O bailado supersônico de
fragmentos cênicos e acordes dissonantes explode as perspectivas
formais do filme em crescente desorientação mental. Avalanches
trovejantes de ruído arrojando cascatas fluorescentes de signos
gráficos voláteis, a hipercinesia levada ao extremo despejando
pulsações corticais que paralisam o movimento numa onda estática de
vibração luminosa, 'Who's that knocking,Who's that knocking on my
chamber door, Could it be the police? They come and take me for a
ride ride, But I haven't got the time time, apoteosedopesadelodespert
ando osíncubosadormecidosnoventreímpiodoDragão,quedeslizamsilenciosos
peloslabirintosdmadrugadametálica,youshouldn'tdothat,she'sbusysucking
onmydingdong,desliguem!!!!!,éprecisodesmontaromaquináriosagradodoinfe
rnoquetransmiteosurrostonitruantesdeLúcifer,porfavor,MrWarhol,compree
nda,estamosaquicomooficiantesherméticosdeumritualsagradoparaexorcizar
atenebrosaMissaNegradoRuídoBranconaFábricadoCaos............................
..............SCRÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉEEEiiiinch...........


Observações finais: 'A Symphony of Sound' deve ser visto num
quarto hermeticamente fechado, com o espectador solitário e imerso
na mais profunda escuridão. Como complemento, no maior volume
possível, competindo em insanidade com a trilha do filme, um bom e
velho bootleg dos Velvets, talvez o "EPI/66" (1996), edição japonesa
de um dos melhores shows do VU em sua fase pré-histórica, ou então,
o que seria ainda mais apropriado, o extraordinário pirata belga
"Sweet Sister Ray's Murder Mystery" (1993), gravação de um show de
1968 que traz uma aterradora versão de "Sister Ray" com 40 minutos
de duração; discos raros, no entanto, dificilmente encontráveis;
caso não possam ser obtidos, recomenda-se a seguinte seleção, pela
ordem: "White Light/White Heat", "Hey Mr. Rain", "I heard her call my
name", "Black Angel's Death Song", "European Son to Delmore Schwartz"
e "Sister Ray". Tenham todos um bom divertimento.
ACADEMIA IRREAL DAS ANARCO-CIÊNCIAS CABALÍSTICAS
E ESQUIZO-MATEMÁTICAS



Tese de Doutoramento em Proto-lógica Trans-alquímica:


LÓGICA META-CRÍTICA DOS PRÉ-PARADOXOS PENDULARES NAS
PSICO-ANTINOMIAS ASSIMÉTRICAS DA ANTI-RAZÃO
EMPIRO-PSICÓTICA



Desorientado: Ten. Giovanni Drogo


Desorientador: Cap. Alphonse Van Worden


INTRODUÇÃO:

.


PRIMEIRO CAPÍTULO:

..


SEGUNDO CAPÍTULO:

...


TERCEIRO CAPÍTULO:

....


CONCLUSÃO:

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Hiroshima Mon Amour: a Liturgia do Silêncio e da Memória


Alphonse Van Worden - 1750 AD


Em 1959 o cineasta francês Alain Resnais oferecia ao mundo a mais
arrebatadora obra-prima da história da sétima arte: "Hiroshima Mon
Amour", uma epifania cuja força raras vezes foi igualada, não apenas
no universo do cinema, mas na trajetória da arte como um todo.

Entretanto, o que dizer hoje sobre uma fita que já foi
exaustivamente analisada em suas inovações narrativas, em sua
requintada sintaxe estilística, e mesmo em seus possíveis e
múltiplos significados, contextos e subtextos? Talvez reste apenas
a possibilidade de uma abordagem de cunho impressionista. E é
exatamente o que pretendo fazer neste artigo: falar sobre as
impressões devastadoras que 'Hiroshima' provocou em mim. De certo
modo, gostaria de poder esquecer inteiramente este filme, apenas
para poder sentir de novo a intensidade da sensação memorável que
é vê-lo pela primeira vez. As considerações que se seguem são,
pois, uma tentativa de evocar, ainda que como mero vislumbre
fugidio, algo do vigor assombroso daquela experiência inaugural.

Creio que "Hiroshima Mon Amour" talvez seja a única obra da
história do cinema em que é possível escutar a diáfana voz do
silêncio. Nos anos em que a Sétima Arte foi silenciosa, o que
podíamos captar não era a presença do silêncio, mas apenas a
ausência da palavra; e a partir do momento em que o cinema passou
a estar sob a égide da prosa do mundo, o silêncio desapareceu sob a
avalanche de um quase sempre infernal concerto de ruídos ( neste
exato momento escuto "Hallogallo", do Neu!, e minha cabeça é uma
autobahn elétrica em direção ao Infinito... mas que diabos isso tem
a ver com o tema de que estou tratando?!? "Quem pudesse sintetizar
tudo isto!"...). Foi somente em 'Hiroshima Mon Amour' que esse
mistério da aurora dos tempos nos foi desvelado: a espectral voz do
silêncio... E quando aqui falo em silêncio não penso, de modo algum,
em negação da palavra, mas em algo que a transcende, numa dimensão
que está além da capacidade de expressão do discurso. As palavras
de 'Hiroshima' , em sua beleza a um só tempo luminosa e cruel, sem
dúvida expressam muito da essência do filme. Mas é certamente no
ballet hipnótico do andar inquieto, do movimento tenso das mãos,
dos gestos repentinos e crispados, e, sobretudo, do olhar
incandescente de Emmanuelle Riva, que a grandeza da obra de Resnais
nos é revelada em toda a sua magnitude. A deslumbrante atriz
francesa, na mais perfeita interpretação que já vi, consegue
transfigurar silêncio em verbo pleno de significados, em 'ausência'
que se faz 'presença'. Tanto nas cenas que se passam em
'Hiroshima', com Eiji Okada funcionando como contraponto, quanto
nos flashbacks que remetem aos eventos ocorridos em Nevers durante a
II Guerra Mundial, pressentimos que o silêncio fala através da
angustiada coreografia espiritual dos atores, verbalizando o
incomunicável, dando corpo ao intangível. O desespero lancinante de
Emmanuelle Riva, digno da dor severa e imponente de uma tragédia
grega, somente pode ser consubstanciado em sua totalidade por meio
do dizer do silêncio, num discurso que não pode ser articulado
como produção racional de sentido, mas sim como visão intuitiva, e
até mesmo profética, de uma verdade que se entrevê nas névoas do
inefável.

Sinfonia rigorosa de silêncio, sensações, palavras agônicas, luz e
sombras, "Hiroshima Mon Amour" é uma grave meditação sobre a
questão da memória, sobretudo da lembrança como ponto de partida
para o esquecimento. Talvez a conquista do presente, se realizando
na possibilidade do esquecimento, esteja no afastamento definitivo
do passado. Mas como se libertar do passado na pálida esperança de
um presente evanescente, que já se esfuma em passado? Emmanuelle
Riva vaga pelas ruas de Hiroshima através das brumas de Nevers,
caminha no presente pelas etéreas veredas do passado ( "and the rain
falls gently on the Town..." ). Ela tenta pateticamente amar um
arquiteto japonês, mas o que consegue ver, no vácuo da memória,
onde a luz dos séculos se desintegra em reflexos crepusculares, é o
rosto morto de um soldado alemão; tenta suprimir Nevers da memória,
mas a reencontra nas ruas de Hiroshima. Em uma passagem
particularmente amarga, Riva divaga, diante de um espelho: "Elle a
eu à Nevers un amour de jeunesse allemand... Nous irons en Bavière,
mon amour, et nous nous marierons. Elle n'est jamais allée en
Bavière. Que ceux qui ne sont jamais allés en Bavière osent lui
parler de l'amour. Tu n'étais pas tout à fait mort. J'ai raconté
notre histoire. Je t'ai trompé ce soir avec cet inconnu. J'ai
raconté notre histoire. Elle était, vois-tu, racontable. Quatorze
ans que je n'avais pas retrouvé... le gôut d'un amour impossible.
Depuis Nevers. Regarde comme je t'oublie... Regarde comme je t'ai
oublié. Regarde-moi". Riva pretende, dando vida, dando
materialidade à lembrança, relega-la ao sono do esquecimento. Mas
isto não é possível. O que aconteceu nas trevas de Nevers é
indelével, e o presente em Hiroshima, que jamais se afirma como
possibilidade real de vigência, é desde sempre passado em sua
fugidia transitoriedade. A ilusão da lembrança como parteira do
esquecimento se desvanece assim como a longa noite de Hiroshima
se dissolve na aurora interminável de Nevers....

No ocaso de sua inquietante jornada, Riva e Okada reconhecem sua
derrota na tentativa de reinventar o presente a partir do
esquecimento. "Hi-ro-shi-ma... Hi-ro-shi-ma. C'est ton nom", ela
diz; replica ele: "C'est mon nom. Oui. Tom nom à toi est Nevers.
Ne-vers-en-Fran-ce". Ambos admitem, por fim, o desalento de sua
posição na ordem do mundo, a impossibilidade do esquecimento como
redenção e o peso intolerável de sua identidade e memória, e o
universo reconstruiu-se "sem ideal nem esperança..."
Devaneio onírico à sombra das policromias de nevóas oscilantes
que, na hipnose lunar das miasmáticas madrugadas tartáricas,
envolvem os melancólicos contrafortes do Bastiani...



Numa das mais antigas galerias comerciais da cidade de Ooth-Nargai,
uma imponente estrutura em pórfiro, adornada por magníficos vitrais
purpúreos, representando seres vagamente semelhantes aos sibilantes
simurgs da sulfurosa Shandelarash, pavimentada por lajes de mármore
negro e azul, e encimada por um teto rendilhado em hipnóticas
abstrações geométricas que, de certo modo, evocavam as evanescentes
muralhas de Evantarek, havia, segundo me disseram, uma fabulosa loja
de discos, especializada em obras raras, e que possuía em seu acervo
gravações de peças jamais lançadas, e até mesmo, especulava-se,
registros de músicas imaginárias... Morando nos arredores da cidade,
cujo centro parecia estar a cada ano mais distante, era-me custoso
ir até a galeria, uma vez que para nós, criaturas periféricas,
tornava-se difícil a orientação nos meandros labirínticos de uma
arquitetura lúgubre e ominosa; a necessidade, contudo, haveria de
resolver a questão: um antigo pagamento, já há muito prometido,
finalmente estava à minha disposição. A sensação de poder gerada
pelo dinheiro (uma quantia bastante razoável, asseguro-lhes)
encorajou-me a procurar a famosa loja; para minha grata surpresa,
não foi uma tarefa das mais árduas. O majestoso edifício rubro era
uma construção única, distinguindo-se facilmente na monotonia
cinzenta da paisagem urbana.

Ao atingir os majestosos portais de ônix que guarneciam sua entrada,
percebi o profundo silêncio que emanava da galeria, em flagrante
contraste com o ruído que se poderia esperar de um centro comercial.
Um oceano iridescente de radiações cintilantes, que jorravam em
sucessivas rajadas dos vitrais escarlates, envolvia o longo e largo
corredor num tiroteio de reflexos flamejantes, fornalha infernal de
nácares sangüíneos; as lojas, todas de igual tamanho, e com seus
nomes cravejados em letras de bronze de feitio similar, estavam
fechadas, o que não era de se esperar na manhã de um dia de semana.
Decepcionado, e, em certa medida, um pouco aturdido, continuei
percorrendo a galeria, apenas para me certificar de ser esta a
correta localização da loja. Alguns passos depois, estava diante de
um letreiro que dizia: MÚSICA DAS ESFERAS; não podia haver qualquer
dúvida. Todavia, à diferença dos demais estabelecimentos, um delgado
feixe de luz escapava pelo vão das portas de jade que a encerravam;
além disso, uma inexplicável sensação de movimento parecia indicar
que a loja estava funcionando. Convencido por estes indícios,
animei-me a entrar. No mesmo instante, a tênue luminosidade deu
lugar a uma penumbra indistinta, e o movimento evaporou-se em uma
sala vazia, desprovida de móveis ou quaisquer outros objetos.
Era-me custoso acreditar no que estava vendo: não havia nada,
qualquer vestígio de um ambiente ocupado por um ser vivo, mas
apenas um deserto de rudes paredes de granito há muito esquecidas;
todavia, a curiosidade me impelia, precisava descobrir algo que me
dissesse o que ocorrera. Até que, em meio às sombras, esbarrei em
uma pequena tabuleta pendurada na parede dos fundos. Aproximando-a
dos olhos, pude ler os seguintes dizeres:



"Em virtude da realização de obras para ampliação da
loja, com o objetivo de proporcionar mais conforto
aos nossos fregueses, estamos funcionando
provisoriamente no subsolo da galeria.

Agradecendo antecipadamente vossa compreensão,

A Gerência



Apalpando mais detidamente, descobri tratar-se não de uma parede,
mas de uma porta; e então pensei, com revigorada, embora não muita
sincera disposição, que o desejo de conhecer o legendário
estabelecimento não me seria afinal negado...

O que vinha a seguir era um longo, escuro e estreito corredor,
bafejado por lufadas sucessivas de um mofo ancestral, o que parecia
indicar um abandono secular; no fim do caminho, deparei-me com o
início de uma escada em espiral. A diáfana claridade, entrevista
depois do sexto ou sétimo degrau, dava-me direito a acreditar que
meu destino estava próximo; expectativa que, no entanto, desapareceu
assim que transpus o oitavo degrau. Continuei descendo e, para meu
espanto, os reflexos de luz periodicamente surgiam e desapareciam,
num ritmo ditado por um mecanismo misterioso, cujo compasso, em sua
insólita intermitência, escapava à mais sutil das lógicas.

Dezenas de degraus mais tarde, desembarquei em uma pequena sala
retangular, decorada apenas por um imenso candelabro de prata,
engastado com minúsculas safiras, esmeraldas e rubis formando
singulares mosaicos; a visão do conjunto despertava sensações de
um sarcasmo cruel e inaudito; meditei, por alguns instantes, a
respeito do eventual significado que tais engastes poderiam
encerrar, mas não logrei encontrar uma resposta razoável. O impulso
da seguir adiante, contudo, ainda predominava sobre a profunda
inquietação que a enigmática peça suscitava; prosseguir era,
portanto, imperativo. O local conduzia a uma outra escadaria, esta
mais ampla e ventilada, iluminada fracamente por archotes dispersos
em suas paredes de pedra; um murmúrio, a princípio indefinível,
chegava a meus ouvidos. Enquanto descia, o zumbido gradativamente
transformava-se em algo semelhante a vozes humanas. Intrigado,
parei de descer de colei a orelha a uma das paredes: tive então
plena certeza de que se tratavam de vozes humanas. Porém, quando
estava prestes a extrair alguma palavra da informe massa sonora, os
sons desapareceram subitamente, dando lugar ao mais impenetrável
silêncio, um manto noturno de silêncio que desvelou-se sobre tudo.
Voltando a descer, notei que a distância entre as paredes começou a
estreitar-se; em poucos instantes, tornou-se exíguo a ponto de
dificultar até mesmo a passagem de um homem esguio como eu. Todavia,
após longos minutos de aflição, senti uma leve brisa acariciando-me
o rosto. A aragem se intensificou passos à frente, trazendo algum
alento, um sopro de esperança para meus debilitados sentidos; foi
então que, de súbito, sem o menor alarde, um fortíssimo jorro de
luz inundou-me os olhos.

A impetuosidade coruscante dos trovões brancos de energia pura que
desabavam sobre mim, destruindo qualquer senso de percepção que
porventura houvesse preservado, tornou quase imperceptível o momento
sublime em que, abandonando a sufocante escadaria, voltei a caminhar
livremente por um espaço amplo. Após longos minutos de espera, quiçá
mais duradouros que as eternidades que nossas temerárias almas
engendram, a tempestade de luz começou a suavizar-se, permitindo-me
contemplar um dos mais impressionantes milagres cruéis que as
instâncias supremas permitiram à obscura existência humana divisar:
caminhava agora através de um colossal salão de mármore nacarado,
iluminado por gigantescos lustres de cristal. A ausência de paredes,
substituídas por imponentes fileiras paralelas de colunas dóricas,
fazia com que os limites do local (se é que estes existem, fato que
até hoje não pude comprovar) se dissolvessem nos confins de uma
refração luminosa argentina, inacessível ao olho humano. O teto
elevava-se à uma altura tão incomensurável, que os lustres, cuja
dimensão deveria ser tratada em termos de dezenas de metros,
transformavam-se em pequeninas lâmpadas bruxuleantes. A luz que
emitiam, em contraste com o turbilhão que há pouco me assaltara a
visão, conferia uma iluminação vaporosa, diáfana ao grandioso salão,
dando ensejo à uma intrincada geometria de sombras e reflexos.

A medida em que prosseguia, começou a entrar em meu campo visual
a presença de uma ciclópica coluna azulada, que se distinguia das
demais não apenas por sua coloração diferente, mas por sua largura
infinitamente maior do que a de qualquer coluna já concebida pela
imaginação humana. Caminhando a passos rápidos em direção ao monstro
silencioso, com a alma dividida entre a descoberta da redenção e a
iminência da tragédia, comecei a observar algumas características da
titânica estrutura. O topo, imerso nas sombras indistintas que
envolviam o teto do salão, dava, entretanto, a nítida impressão de
ultrapassá-lo; a base estava circundada por manchas negras, talvez
dejetos acumulados ao longo de anos, séculos, talvez milênios; e por
fim, a característica mais misteriosa: a coluna era percorrida de
cima a baixo por um incessante ponto luminoso.

Após algumas horas de angustiosa peregrinação, dois enigmas estavam
solucionados: os detritos que pejavam a base do monumento nada mais
eram do que dezenas de corpos humanos, espalhados ao seu redor e em
torno de outras colunas; e o anteriormente pequenino ponto luminoso
convertera-se num monumental elevador de portas de bronze. Aterrado,
aproximei-me dos corpos que emolduravam a coluna principal. Ali
jazia um amontoado de homens e mulheres de diferentes idades e
raças, cujo único ponto de convergência era o fato de todos estarem
trajados de negro. Chegando mais perto, verifiquei que não estavam
mortos; ao contrário, respiravam com sofreguidão, e tinham suas
faces de máscara de cera iluminadas por olhos invariavelmente
arregalados. Percorrendo a base da coluna, notei que um deles, um
homem de meia-idade, cujo rosto era adornado por uma copiosa barba
ruiva, ainda conseguia manter-se sentado e, por instantes, parecia
mover lentamente os olhos. Ajoelhei-me, então, diante dele, e
perguntei: "o que está acontecendo?" Percebi que seus olhos
cinzentos me encaravam, mas a boca escancarada não emitia qualquer
vestígio de som. Exasperado, segurei-o pela gola da camisa e comecei
a sacudi-lo, repetindo a pergunta. De repente, um balbucio chegou,
remoto, a meus ouvidos: "est..." Encostei-me a sua boca e novamente
o sacudi. O fragmento sonoro antes esboçado completou-se: "estamos
esperando..." A perspectiva de decifrar aquele código secreto
estimulou-me a insistir. Com os olhos cada vez mais esbugalhados, o
espectro humano continuou com suas emissões intermitentes: "estamos
esperando o momento..." , frase que repetiu algumas vezes. Depois
disso, calou-se novamente. Furioso, agarrei sua cabeça, batendo-a
com toda a violência contra a superfície da coluna.

Após este absurdo acesso de loucura, em que julguei tê-lo matado,
percebi que continuava vivo, encarando-me com os mesmos olhos
tetricamente abertos, com a mesma mudez impiedosa. Formulei, então,
mais uma vez a pergunta; e enfim, o murmúrio, egresso das
profundezas abissais daquele ser ausente, vinha à tona novamente,
desta vez completo em sua alucinante lógica do inominável: "estamos
esperando o momento de iniciarmos outra espera..." Desistindo de uma
vez por todas de todo e qualquer sentido, larguei aquela massa
inerte, recuei e dirigi meu olhar ao elevador, contemplei,
paralisado, os números de seu enorme mostrador, que iam de
0 a 1000, estando este último número iluminado. Por longos minutos,
projetado numa dimensão para além do espaço e do tempo, vislumbrei
aquele inatingível sinal luminoso. Tão absorto estava naquele transe
alucinógeno que mal percebi o vagaroso, porém contínuo, movimento
iniciado pelo sinal de luz para baixo, acompanhado pelo imponente
ponteiro do mostrador. Após mais alguns instantes de letargia,
reparei que o elevador estava efetivamente descendo. Um frenesi de
excitação incontrolável atravessou-me as entranhas; ia, enfim, me
ver livre daquela legião de íncubos demoníacos, voltar para a
superfície, para casa, para a periferia, para longe do centro da
terra, do vórtice funéreo... Mas quando o ponteiro, acompanhado por
uma intensa luminosidade advinda da fresta entre as portas do
elevador, atingiu o número 0, o pesadelo retornou em velocidade
redobrada: os portões de bronze permaneceram fechados. Desesperado,
esmurrei-os de todas as maneiras possíveis, tentei separa-los até o
limite de minhas já esgotadas energias, num esforço vão, inútil. Em
um espasmo de entendimento, compreendi em toda extensão de sua
terrível e pavorosa simplicidade, o sentido das palavras sussurradas
pelo espectro ruivo. Poucos minutos depois, o mefistofélico
mecanismo voltou a subir, em seu ritmo imperturbável de coisa eterna
e universal, presente desde o alvorecer dos tempos...

Nos primeiros dias, e talvez mesmo nas primeiras semanas, ainda
esperei o momento da libertação, a epifania ansiada; logo, porém,
parei de me indignar, de tentar reverter o irreversível.
Gradativamente, sentei-me junto à coluna, e então, estendi-me,
irresgatável, sobre a glacial superfície de mármore. Meus olhos não
mais se fechavam; a boca, seca, escancarava-se num lamento sem voz.
Nada mais me restava, para além da noite eterna do Tempo, senão
esperar, continuar esperando pelo momento de iniciarmos outra...


Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira do Norte - Deserto dos Tártaros
Uma, por assim dizer, insólita, mas assaz relevante e instrutiva
sugestão



Alphonse Van Worden - 1750 AD


O taciturno Tenente Drogo solicitou-me, uma vez que seus afazeres no
Bastiani lhe ocupam muito tempo, que eu recomendasse a leitura,
notadamente para os leitores oníricos da Cidadela de Fogo, do
seguinte texto, que pode ser encontrado em
http://www.ict.org.il/articles/fatwah.htm
LUKASIEWICZ, ARISTÓTELES E O PRINCÍPIO DA NÃO-CONTRADIÇÃO


Alphonse Van Worden - 1750 AD


Tenciono discutir, no presente artigo, algumas questões relativas
ao célebre 'princípio da não-contradição' formulado por Aristóteles;
para tanto, pretendo expor à consideração dos senhores um artigo
sobre o supracitado tema, de lavra do notável lógico, matemático e
filósofo polonês Jan Lukasiewicz (1878-1956), um dos expoentes,
ao lado de Kazimierz Twardowski (1866-1938) e Stanislaw Lesniewski
(1886-1939), da renomada escola de lógica que se formou nas
universidades de Lvov e Varsóvia. O estudo de Lukasiewicz, O
ZASADZIE SPRECZNOSCI U ARYSTOTELESA: STUDIUM KRYTYCZNE,
foi publicado originalmente em 1910, podendo, no entanto, ser
encontrado no número XXIV da Review of Metaphysics, traduzido por
Michael V. Wedin sob o título ON THE PRINCIPLE OF CONTRADICTION IN
ARISTOTLE: A CRITICAL STUDY.

Aristóteles, no Livro IV da METAFÍSICA, apresenta o princípio da
não-contradição de três maneiras distintas, que serão denominadas
por Lukasiewicz como formulações 'ontológica', 'lógica' e
'psicológica'. O esforço analítico do lógico polonês, todavia, irá
se concentrar sobretudo nas formulações ontológica e lógica. Para o
Estagirita, elas são equivalentes, tendo-se em mente que uma
proposição, para ser verdadeira, deve estar conforme à realidade
objetiva. As formulações ontológica e lógica seriam, portanto,
verdadeiras pela circunstância de o mundo ser, metafisicamente,
tal como é. Devemos ainda ressaltar que o princípio da
não-contradição é, na perspectiva de Aristóteles, uma lei final,
indemonstrável. Exigir uma demonstração, uma fundamentação última do
'princípio', seria incidir num retrocesso que não poderia deixar de
ser infinito, incidir numa exigência que, pela própria natureza da
questão em pauta, não poderia ser satisfeita. E, se existe algo que
pode ser conhecido sem provas, que haveria de mais ajustado a essa
espécie de conhecimento do que a lei da não-contradição, um
princípio do qual é impossível duvidar ao pensarmos?

Com o propósito, todavia, de evidenciar a necessidade do princípio
da não-contradição, o Estagirita propõe uma série de argumentos que,
refutando a possibilidade da contradição na ordem do Discurso,
procuram justificar o princípio. Lukasiewicz denomina tais
argumentos como 'demonstrações elênticas e apagógicas', muito embora
Aristóteles, deve-se sublinhar, jamais tenha pensado neste conjunto
de deduções em termos de demonstrações 'positivas' do princípio.
Parece evidente, a meu juízo, que o objetivo da estratégia de
Aristóteles é o de comprovar que, admitindo-se a contradição,
destrói-se o Discurso, rompe-se a possibilidade de comunicação
racional, uma vez que os símbolos deixam de atuar como símbolos,
não mais podendo refletir a Realidade no Discurso. Além disso,
Aristóteles procura evidenciar, especialmente nas demonstrações
apagógicas, as conseqüências absurdas a que somos levados quando
negamos o princípio da não-contradição.

Não sendo razoável, e nem tampouco desejável, reproduzir aqui todos
os passos da minuciosa análise de Lukasiewicz, gostaria de examinar,
no entanto, as considerações mais relevantes que o lógico polonês
extraiu de seu percurso argumentativo.

Em primeiro lugar, Lukasiewicz constata que o princípio da
não-contradição não pode ser demonstrado com base em sua evidência;
com efeito, a 'evidência' em si mesma não constitui critério seguro
de verdade. Também resultaria inconseqüente, por outro lado, a
tentativa de se derivar o Princípio a partir de nossa estrutura
psíquica, uma vez que leis psicológicas apenas são suscetíveis de
comprovação através do método experimental, e este não nos autoriza
sequer a formular a Lei da não-contradição como princípio válido em
primeira aproximação. Uma terceira possibilidade seria, então,
procurar deduzir o Princípio da definição de 'negação' ou de
'falsidade'. Se "A não é B" exprime, por exemplo, simplesmente a
falsidade de "A é B", para natural concluir que essa definição
acarreta o Princípio. Contudo, nos diz Lukasiewicz, isto não ocorre
na realidade: mesmo que aceitemos como correta a definição
precedente de falsidade, nada impede que as proposições "A é B" e
"A não é B" sejam ambas verdadeiras; apenas se impõe, como
conseqüência, que a proposição "A é B" é simultaneamente falsa e
verdadeira. A Lei da não-contradição envolve a noção de conjunção,
e não decorre unicamente da definição de falsidade ( ou negação ).
O lógico polonês nos chama a atenção para outra definição de
'verdade' e 'falsidade' que, de uma certa maneira, parece ser mais
fecunda que a tradicional: a proposição "A é B" é verdadeira se
corresponde a algo objetivo; falsa, em caso contrário. Similarmente,
"A não é B" é uma proposição verdadeira se representa vínculo
objetivo; falsa, caso tal fato não se dê. Levando-se em consideração
tais critérios, nada impede 'a priori' que as proposições "A é B" e
"A não é B" sejam ambas verdadeiras, desde que representem situações
objetivas.

Lukasiewicz também observa que qualquer defesa contemporânea do
princípio da não-contradição deve levar em conta o fato de 'objetos
contraditórios', como, por exemplo, o 'Círculo Quadrado' de Meinong,
pode ser matematicamente concebidos. Para tais objetos, claro está
que o Princípio não é válido. Obviamente o lógico polonês não
pressupõe que Aristóteles pudesse ter trabalhado com base em tais
considerações, que fazem parte de um acervo de estudos que começou a
se desenvolver apenas a partir de meados do século XIX, no esteio do
florescimento da lógica simbólica. Entretanto, isso não nos impede
de salientar a relevância intrínseca da observação de Lukasiewicz: a
existência de 'objetos
contraditórios' foi confirmada pelos desdobramentos recentes da
lógica, como a Lógica Paraconsistente, que se desenvolve a partir de
uma teoria dos sistemas formais inconsistentes. Podemos hoje atestar
a existência de construtos lógico-matemáticos onde aparecem objetos
contraditórios e que, por conseguinte, derrogam o princípio da
não-contradição. Tendo em vista tais perspectivas, o Princípio não
se mostra tão absoluto e intocável quanto poderia parecer à primeira
vista. Aliás, Lukasiewicz afirma que, mesmo para Aristóteles, o
princípio da não-contradição não poderia ser uma lei suprema, ao
menos na acepção de que constitui pressuposição necessária de todos
os demais axiomas lógicos. Citando célebre passagem de Aristóteles
nos ANALÍTICOS POSTERIORES ( An. Post. A, 11, 77a 10-22 ), o lógico
polonês assevera que o seguinte silogismo seria válido, de acordo
com os postulados do Estagirita:


B é A ( e também não é não-A )
C, que é não-C, é B e não-B
_________________________

C é A (e não é também não-A)


O silogismo anterior é, portanto, válido, embora a lei da
não-contradição seja violada; é imperativo, portanto, aceitarmos a
existência de leis válidas de raciocínio que independem do princípio
da não-contradição.

A questão central a que agora chegamos pode ser apresentada da
seguinte forma: existem 'objetos' em relação aos quais estamos
certos da vigência do princípio da não-contradição? Em sua análise,
Lukasiewicz irá destinguir três tipos de objetos: 1) os objetos
reais; 2) as 'abstrações construtivas',livres criações do intelecto,
como, por exemplo, os objetos da matemática clássica; 3) as
'abstrações reconstrutivas', que são conceitos elaborados para
representar coisas reais.

No tocante às abstrações construtivas, paradoxos como o que célebre
matemático e lógico inglês Bertrand Russell (1872-1970) descobriu em
1901, ao considerar a questão do 'Conjunto de todos os conjuntos que
não são membros de si mesmo', indicam que, na maioria dos casos,
jamais teremos certeza de que não irão violar o princípio da
não-contradição. No que concerne às abstrações reconstrutivas, que
bem espelham o realidade objetiva, e aos objetos reais, eles parecem
estar protegidos da contradição. Com efeito, parece haver certeza de
que não existem contradições diretamente perceptíveis na Realidade,
pois as negações correlacionadas a juízos de percepção não são elas
mesmas perceptíveis, pelo menos em nossa experiência cotidiana. No
atual estágio de nosso conhecimento, temos a tendência a admitir
como correta a constatação de qualquer contradição 'real' só pode
ser 'mediata', resultado de inferências. Por outro lado, no entanto,
não podemos esquecer o fato de que, desde os primórdios da filosofia,
é recorrente a tese de que conceitos como o de 'movimento'
necessariamente envolvem contradições (a este respeito, podem ser
mencionadas as aporias de Zenão de Eléia). Muito embora essas
dificuldades lógicas tenham sido sempre eludidas por meio de
esquemas teóricos, posto que decorrem de inferências, não parece
haver nenhum prova definitiva de que não existam contradições no
'mundo' objetivo. Portanto, não existe, também, qualquer prova
positiva e inequívoca de que o princípio da não-contradição possui
plena vigência em relação aos objetos reais e abstrações
reconstrutivas. Contudo, na medida em que podemos verificar que o
Princípio é 'útil', devemos encará-lo apenas como suposição ou
hipótese que norteia e confere forma à indagação científica,
regulamentando certas teorizações do Real.
MONÓLOGO CIRCULAR



Alphonse Van Worden - 1750 AD



.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?....
...?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?....?....
...?.......?.......?.......?......., ao longo destes largos
corredores, plenos de luz e sombra, de terror e magia, destas torres
silenciosas, destas salas desertas, seqüências intermináveis de
eventos intermitentes, sucessão de vagos fragmentos de lembranças
olvidadas..., destas ruínas helênicas, sóbrias, imponentes, vácuos
onde a luz dos séculos se desintegra em reflexos crepusculares, desta
miríade de gárgulas inumanos, destes átrios insondáveis, sim,
vórtice abissal de muitos, milenares passos em direção ao
infinito....., ao longo destes labirintos, espelhos, espectros,
delírios, presságios, penumbras, epifanias, minha mente se vê
emaranhada na armadilha da memória, sorvedouro cósmico de passados e
futuros dissolvidos na eternidade do instante, Aleph caleidoscópico
do Universo visto em um grão de areia, curvatura infinita do
espaço-tempo onde a existência se contrai no espasmo de um segundo,
entropia crescente que pulveriza o transitório em incontáveis
partículas de eternidade, galáxias de luz, tempo e tempestade,
eterno retorno de sombras imemoriais, sim, moléculas de Deuses
extintos, fragmentados em sonhos, lembranças do futuro, vaticínios
do passado, assim como ainda ocorre nos rios de Heráclito, nos
labirintos do Bokari, na Escritura de Deus, e também nos majestosos
palácios de Mariembad, e talvez, quem sabe, nos de Frederiksbad,
onde as.................


................... o retorno. O longo e doloroso regresso. No
início, apenas sons vagos e fluidos, ressonâncias longínquas de eras
glaciais, murmúrios sussurrantes de vozes há muito esquecidas, o
não-ser transformando-se no demoníaco enigma do existir, encarnação
do "É", Caos da explosão inicial, caldo primordial dos aminoácidos da
memória, tragédia tragicósmica-cosmicômica do ser encarcerado pela
eternidade, tempo passageiro do que nunca existiu, prodígio das
dimensões recônditas de um universo em vagarosa expansão, metamorfose
múltipla do corpo do DEUS..., a seguir, imagens, íncubos das
profundezas do tempo redescoberto, diáfana sinfonia de reflexos
luminosos, etéreos vapores coloridos compondo um ballet translúcido
de devaneios em forma de dríades, sílfides, naíades e orestíades,
Ó dança sagrada das almas!!!......., DEPois, gradual, pausada,
lentamente, a consciência, a memória, prolongado retorno de um sono
secular, profunda letargia do inconsciente, dimensão ignota do
esquecimento humano, paradeiro ignorado do ser, sim, agora começo a
lembrar-me de que houve algo, de que fatos já aconteceram, efêmeros,
fugazes, por vezes reais, eventualmente imaginários, pálidos efeitos
da transcendência de um Topos Uranus inatingível, mas...., sim, houve
algo, alguma vez houve olhares, acenos, sorrisos, gestos, afagos, ou
ainda carícias, beijos, abraços, talvez até mesmo paixão, amor,
amizade, lealdade, quem sabe pureza, solidariedade, justiça,........
e houve, eu me lembro agora, porventura apenas uma vez, algum
vislumbre de mudança, uma oportunidade, a alternativa real de uma
possibilidade de........


..................., hoje, implacável, do desassossego a treva
desvelou-se sobre mim, eterna melancolia ancestral, sem possibilidade
de resgate ou redenção, a morte na alma irrealizada, o desejo
compulsivo em sucessivas vagas que desagüam no caos, tudo
inexprimivelmente morto, árido, desértico, silêncio da memória em
busca de sementes que não germinaram, pulsão de vida desintegrada em
milhares de pequeninas mortes que, infinitas, se prolongam, espírito
fragmentado em lancinantes urros de dor que se desvanecem no vácuo do
esquecimento, sim, vestígios das imemoriais tempestades do tempo, da
do desalento interminável calmaria véspera sombria, eterno retorno
de espectros que na alma não encontram perene sepultura, condenados
a errar inclementes por intermináveis labirintos, a caminho da ruína
metafísica, miríade de horrores na aurora das eras glaciais,
desaguando, translúcidos, ao longo desses longos corredores, plenos
de luz e sombra, de terror e de magia, dessas salas desertas,
seqüências intermin.......?.......?.......?.......?.......?.......?..
.....?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......
?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?....
...
Devaneios ao nascer do dia, com algumas pitadas de delírio reflexivo e de
reflexão delirante...



- A diferença entre dois 'sins' pode ser maior do que a que existe entre um
'sim' e um 'não'...

- Cada um passeia seu pensamento como se passeia um macaco na coleira.
Quando lês, tens sempre dois macacos diante de ti: o teu e o de um outro;
ou, o que é ainda pior, um macaco e uma hiena. Vê lá o que darás para
alimentar a um e a outro, pois a hiena não come a mesma coisa que o
macaco...

- Os atos dos homens são como alimentos, e os pensamentos e sentimentos
são os temperos; quem salga as cerejas, ou tempera um doce com vinagre,
terá problemas...

- O sonho é um jardim do diabo, e todos os sonhos deste mundo já foram há
muito sonhados. Hoje, eles são apenas trocados pela realidade igualmente
gasta e usada,
assim como as moedas e notas são trocadas de mão em mão...

- Cada um é a cruz de sua vítima, mas os cravos atravessam também a cruz...



Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros
Reflexões talvez irrefletidas, ao cair da noite...


Alphonse Van Worden - 1750 AD


- Tendo saudades do FUTURO, mas deposito minhas esperanças no
PASSADO...

- Eu sou o Senhor da Montanha; não que isso signifique algo, caso
quisesse dizer alguma coisa...

- Não me preocupa a existência ou não de VIDA após a MORTE; o que me
assusta, e muito, é que não exista MORTE após a VIDA...

- Não tenhas medo dos palhaços vestidos de torturador, mas sim dos
torturadores vestidos de palhaço...

- A Ditadura perfeita é aquela em que podes pensar ou dizer o que
bem entenderes, pois nada que porventura penses ou digas provocará
qualquer efeito, despertará qualquer eco...
À Guisa de um esclarecimento em nada esclarecedor:

Gostaria de avisar a meus leitores, espectrais e imaginários, do passado e
das anti-dimensões meta-temporais, que o intrépido Capitão Van Worden, por
razões incompreensíveis mesmo para a mais exata das ciências e o mais
obscuro dos hermetismos, se transforma, em certas ocasiões, no Tenente
Giovanni Drogo, austero e melancólico oficial que serve no Forte Bastiani, na
Fronteira Norte junto ao Deserto dos Tártaros.

ps: antes que o olvido me envolva, um importante adendo: peço
encarecidamente aos leitores espectrais, sobretudo aos que flutuam nas nas
imediações da Torre Negra, que me informem sobre o que, de facto, ocorreu
nas Ilhas Solitárias em 25/12/3543. Desde já, agradeço-vos.